A cultura do cuidado: uma questão de dignidade

 Prof. Marcelo Luciano Vieira e as professoras Maria Elena Rodriguez Ortiz e Monah Winograd

Prof. Marcelo Luciano Vieira e as professoras Maria Elena Rodriguez Ortiz e Monah Winograd

por Isabelle Bernardes

Cultura do cuidado e terminalidade da vida foram os principais temas debatidos durante evento realizado na PUC-Rio em celebração aos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Organizada pela Dra. Claudia Burlá e pelo Prof. Marcelo Luciano Vieira, a mesa redonda “A cultura do cuidado -  uma questão de dignidade” foi realizada no dia 06 de novembro, no auditório Padre Anchieta.

Durante o evento, as professoras Monah Winograd e Maria Elena Rodriguez Ortiz abordaram o tema a cultura do cuidado como valor humano, destacando a importância de considerar cada vida como digna e singular. Do ponto de vista de quem cuida do outro, respeitar a liberdade de escolha, regras e valores de uma sociedade é importante para construção de um indivíduo mais digno.

O maior avanço no processo civilizatório desse século foram os direitos humanos, concedidos na declaração de 1948. Esses direitos possuem três bases: a liberdade, a igualdade e a dignidade – assegurados pelo art.1 da declaração, que prevê a dignidade humana como valor fundamental do Estado brasileiro.

“O princípio da dignidade humana permeia a proteção da pessoa de forma holística (analisa a pessoa como um todo). É o exercício de uma vida digna, da integridade física, psíquica e de tudo o que protege a sua personalidade no mundo. Outra característica importante dos direitos humanos é que eles não são estáticos, portanto sua ideia é uma história de construção e reconstrução. Os direitos humanos seguem a vida social e os avanços das relações interpessoais”, explicou a professora Maria Elena Ortiz

A segunda parte do evento contou com a participação do Vice-Reitor da PUC-Rio Pe. Álvaro Mendonça Pimentel, da Drª. Claudia Burlá e da Profª. Thamis Ávila Dalsenter Viveiros de Castro que discutiram sobre o tema “Bioética do fim da vida: a importância da dignidade e do respeito ao enfermo”.  

Reconhecer a morte de uma pessoa e não postergar o sofrimento quando não há uma possível reversão foi a principal temática deste debate. O Brasil é o 42° lugar no mundo em termos de qualidade de assistência de fim de vida. Segundo a Drª. Claudia Burlá, esse fato é causado, principalmente, pelo difícil acesso a medicamentos no país. A dignidade humana vai além da existência do ser humano, todos precisam viver dignamente, até o seu apagar de vida.

“Em algumas situações, os cuidados paliativos são respostas para a manutenção, preservação e exaltação da dignidade das pessoas. Porque quando a doença não pode ser mais combatida, o foco deixa de ser esse e passa a ser a pessoa e seus múltiplos problemas que vão além da própria doença orgânica. As questões existenciais que vão além do que as pílulas podem resolver precisam ser bem cuidadas e para elas ainda não existem protocolos nem diretrizes”, alegou Drª Burlá.

Segundo o Pe. Álvaro Pimentel, o ser humano já nasce digno por natureza, ou seja, não são acolhidos e cuidados por serem capazes de fazer algo, e sim, pelo fato de ser e de receberem originalmente esse dom. Reconhecer o próprio dom auxilia no acolhimento e espelhamento no outro, pois quando alguém se doa ao outro, também recebe em troca. Além disso, o vice-reitor reforçou a necessidade de simpatizar com a dor do outro, pois esse ser que sofre continua sendo um ser de dom único.

As pessoas foram acostumadas a pensar na morte como algo que se luta contra e não se aprende a lidar com ela. Um documento contendo os desejos do paciente é a melhor maneira de reafirmar sua vontade e tornar digna tanto a vida, quanto a morte dessa pessoa. O testamento vital é o documento pelo qual a própria pessoa deixa por escrito o que não quer que seja feito com ela durante o seu tratamento, ou seja, ela estabelece sua vontade e exerce sua capacidade como ser autônomo. No mandato duradouro ou na procuração de saúde, a escolha está nas mãos de um terceiro de sua confiança, que será o responsável por decidir os futuros tratamentos, quando o paciente não possuir mais condições de exercer sua autonomia.

“A melhor opção é redigir um documento dizendo o que você gostaria que fosse feito por você e o que não gostaria, mas também é possível determinar alguém para ser seu procurador de saúde, permitindo que ele decida por você”, aconselha a Profª. Thamis Ávila de Castro.