Fotógrafo alemão descreve experiência em colônias de Hanseníase

 Heiner Pflug

Heiner Pflug

por Letícia de Oliveira

Na quinta-feira 15 de agosto, penúltimo dia da XVI Mostra PUC, o fotógrafo e escritor Heiner Pflug compartilhou, em uma palestra, um pouco de sua experiência nas colônias de isolamento dos portadores de Hanseníase.

A jornada de Pflug começou quando ele se casou com Carmen, sua atual esposa e também voluntária das colônias. Começou doando eletrodomésticos a esses centros e, aos poucos, foi se aproximando da questão da Lepra. "Conheci diversos ex-portadores de Lepra. Fiquei profundamente sensibilizado com a vida dessas pessoas". Para ele, a peregrinação nos centros de isolamento foi uma lição de vida. "Hoje, se convencionou chamar a Lepra de Hanseníase e os leprosos de portadores de Hanseníase. Entretanto, a doença e todo o preconceito que a envolvem continuam iguais".

O livro de Heiner Pflug, "Quebrando barreiras: um mergulho no estigma da Lepra", é resultado das pesquisas de campo do fotógrafo nas colônias de isolamento. É baseado em conversas e fotos dos portadores da doença. Em seu relato, foi descrito o tratamento desumano que se dava aos portadores de Hanseníase na Idade Média. "As vítimas eram renegadas, condenadas à solidão desde os tempos bíblicos e cruelmente abandonadas pelas famílias. A exclusão chegava ao constrangimento e à humilhação. (Os doentes) sem ter para onde ir, perambulavam nas estradas e cidades, o que, inevitavelmente, os conduzia ao cruel isolamento, sem qualquer tipo de afeição".

Estima-se que vivam, hoje, mais de três milhões de pessoas com deficiências físicas em consequência da Lepra. "A hanseníase chegou ao Brasil com os primeiros navegadores portugueses, e mais tarde com os navios carregados de escravos africanos". Heiner explicou a alta incidência da Lepra no Brasil, segundo país com maior número absoluto de infectados no mundo, sendo superado apenas pela Índia. "A Índia tem um bilhão de pessoas, nós temos duzentos milhões. Então, em proporção ao total de população, estamos, infelizmente, em primeiro lugar".

O fotógrafo lembrou, ainda, que um dos grandes problemas da Lepra é o desconhecimento de muitos acerca da doença. Com isso, ela acaba sendo diagnosticada tardiamente. "O diagnóstico precoce é fundamental". Entre os principais sintomas está o surgimento de manchas avermelhadas acompanhado pela perda de sensibilidade do local. "Quando a doença está avançada, o tratamento não recupera o paciente, gerando sequelas, estigmas, aflição, rejeição e marginalização", esclarece Pflug.

Heiner explicou também como funcionavam a internação e a vida nas colônias. "Uma vez descoberta a enfermidade, o paciente era compulsoriamente internado na colônia estadual. A política de segregação dos portadores de Hanseníase foi completa", lembra ele, descrevendo o início do surgimento dos centros de isolamento. "Como as colônias eram cercadas e vigiadas ininterruptamente, a vida nelas era autônoma. Os próprios pacientes assumiam as funções internas de enfermagem, limpeza, construção, administração e segurança. As colônias se tornaram autossuficientes, com toda a estrutura de uma cidade planejada". Com isso, os moradores não necessitavam de contato com o mundo exterior. Ainda assim, as fugas eram frequentes. "As colônias foram construídas para excluir os hansenianos da sociedade. A maior parte dos pacientes esperava, em vão, desde o primeiro dia de internação por visitas de família, ou pelo menos uma carta. Muitos passaram até cinquenta anos internados sem que ninguém os procurasse, como se já estivessem mortos", descreve Pflug.

Mesmo com o passar dos anos, o fotógrafo acredita que o preconceito relativo à Hanseníase ainda seja muito presente em nosso país. "O preconceito só se pode combater à base de mais conhecimento, debate e discussão. Com desconhecimento da causa vamos continuar com preconceitos". Heiner descreveu situações de discriminação vividas e contadas pelos moradores das colônias.

Em 1940, com o surgimento dos antibióticos, o tratamento da Hanseníase passou a ser mais eficaz. Entretanto, a utilização desse conhecimento só começou no Brasil em 1986. Hoje, a ciência médica tem os remédios para vencer a Hanseníase nos primeiros estágios. Apesar disso, os maiores obstáculos para enfrentar a doença são o preconceito e a falta de altruísmo. "A vida nos mostra exemplos de que ao exercitarmos o coletivismo, compartilhando dores, tristezas, lutas e alegrias, com certeza as conquistas virão".